terça-feira, 25 de agosto de 2009

Trote para a humilhação: calouros e porquinhas numa cajadada só

22 de agosto de 2009

A confusão deu até na TV: “porcos utilizados em trote geram transtornos na Universidade de Brasília”. A manchete diz respeito ao trote realizado para os calouros do curso de Agronomia da UnB, em que foram utilizados duas leitoas filhotes, com placas que traziam piadas relacionadas à gripe suína. A mídia falou sobre a suspensão das aulas, a interrupção das atividades do Departamento de Agronomia, e também da multa imposta a Ninguém (isto é, ninguém se identificou como responsável pelas porquinhas) por levar animais ao campus sem autorização de transporte exigida pela Lei de Crimes Ambientais.

Muitos aspectos da confusão foram destacados, mas, os oprimidos, estes continuaram oprimidos. Refiro-me aos calouros, que participavam de um rito de humilhação apelidado de “trote”, e das leitoas, que serviram apenas como instrumentos para um divertimento de mau gosto e como expiação para o erro alheio. Esta é a situação exemplar em que os mais frágeis e vulneráveis são subjugados e desrespeitados - pelo simples fato de serem frágeis e vulneráveis. No caso das porquinhas é ainda pior, pois não são capazes de verbalizar que não estão gostando da “brincadeira”.

As boas vindas aos ingressantes de uma universidade podem ser feitas de diversas formas, desde empoderá-los de todas as possibilidades que um universitário passa a usufruir, até humilhar e subjugar, como condição para não se sentir discriminado no grupo do qual passará a fazer parte. O trote, ou qualquer outro sinônimo para um ritual de recepção dos ingressantes, pode ser um espaço para apresentar o universo acadêmico, e pode inserir os calouros não em atividades humilhantes e vexatórias, mas em atividades solidárias, inclusive para com os animais não humanos. O fato é que, em vez de promover a proteção ou a adoção de animais abandonados, o trote do curso de Agronomia optou por desperdiçar a chance de promover a solidariedade e, de quebra, expôs duas porquinhas a situações nas quais não tinham nenhum interesse, coisa que os grunhidos, a agitação e a defecação, mostravam “com todas as letras”.

Com o protesto das porquinhas, o que era para ser um trote se transformou em confusão. Acabou dando polícia e as leitoas foram apreendidas pela Secretaria de Agricultura, uma vez que o responsável não se identificou. Não foram elas que inventaram a brincadeira, mas, pra variar, as porquinhas por serem mais fracas é que “pagariam o pato” pela irresponsabilidade alheia: caso o dono não comparecesse na Secretaria de Agricultura para pagar uma multa e assim retirar os animais, estas seriam abatidas em questão de poucos dias. Mas esta novela teve um final feliz, o Núcleo de Estudos Vegetarianos de Brasília e a Associação Protetora dos Animais de Brasília - ProAnima, realizaram uma extensa articulação e hoje as porquinhas estão sãs e salvas, vivendo num lar adotivo, onde não serão mais alvo de piada e nem menos serão abatidas.

Leonardo Ortegal

saiu como artigo no site da ANDA: http://www.anda.jor.br/?p=17329

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ilhas habitacionais e o paradoxo do pensamento de massa e individualismo social

Essa é a parte II do texto do Setor Noroeste. Havia mais esse assunto pra tratar, e eu acabei optando por separar essa parte do texto anterior. O Setor Noroeste é um caso emblemático, mas se enquadra dentro desse assunto mais geral, que é o de hoje.

O que acontece é a existência de um fenômeno bem típico de sociedade, cuja dinâmica é a do desenvolvimento desigual e combinado (salve Furtado!), isto é: uma sociedade que cresce na riqueza (concentrada) e na pobreza ao mesmo tempo. Sim, é uma contradição, mas uma contradição de alma; no caso, a alma do modelo capitalista. Daí é que não causa surpresa o ‘bota fora’ feito para índios seculares, em nome da devastação de matas preservadas para a edificação de mais uma colônia de concreto de alto custo.

Um caso semelhante é o surgimento das ilhas habitacionais. Ilhas! Eu queria parabenizar a pessoa que teve a idéia de dar esse nome! Nenhum outro nome poderia se encaixar tão perfeitamente como esse. Aqui no DF já existem duas, Ilhas Maurício e Ilhas do Lago. E a idéia é bem essa mesmo, um oceano de pobreza e miserabilidade humana cercando um pequeno aglomerado de riqueza acumulada.

..Mas eu falei de riqueza, pobreza, e miséria humana? Porque é fundamental deixar claro que esses termos podem ser relativizados e postos de cabeça pra baixo. Afinal, que riqueza há em habitar um lugar, cujo valor injetado para comprar a especulação daria pra bancar a sobrevivência de famílias e famílias que perecem por não terem o mínimo necessário para viver? Que riqueza há em ter uma tv enorme e bonita, se o noticiário que o rico entediado assiste por ela só mostra violência e desgraça?

Além disso – e de muitas outras coisas que poderiam ser ditas nesse sentido –, existe um ponto muito interessante que eu gostaria de compartilhar aqui. É sobre o paradoxo do pensamento de massa e o individualismo social. É uma contradição muito interessante, não fosse o seu trágico conteúdo para a ‘nossa’ humanidade. Parece algo confuso e, à primeira vista,complicado de entender. Mas a explicação vai se tornando acessível na medida em que nos deparamos com exemplos variados desse paradoxo no nosso cotidiano.

O pensamento de massa, como o próprio nome já diz, tem a ver com isso aí que está em todo lugar. Um pensamento só, que serve como molde para uma frota, um exército de indivíduos. Uma só receita. Um só caminho para a felicidade – o segredo está enterrado nas Ilhas! O individualismo social, por sua vez, é a proeza que a sociedade é capaz de produzir, e que está resumido naquela conhecida frase: ‘sozinho no meio da multidão’. É a capacidade de um conjunto de indivíduos estarem juntos e separados ao mesmo tempo. É quando o seu sucesso é completamente dependente do fracasso de muitos. É quando o indivíduo é como uma ilha, e a sociedade é como um mar que não se cansa de tentar invadir, engolir. E aquele que se vê na posição de ilha e vê os outros como mar, é também o mar que inquieta a ilha que é o outro.

Acho que deu pra entender os dois pontos. Agora, o paradoxo que aí existe: Como é possível que os indivíduos sejam massa onde deveriam ser únicos, e únicos, onde deveriam ser coesos como os ingredientes de uma massa? É isso aí. É quando se consegue fazer com que um mundo inteiro não ultrapasse os limites de uma ilha.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Setor Noroeste: Não é ecológico. E está AMALDIÇOADO

Saíram ontem especulações sobre o valor dos apartamentos do chamado Setor Noroeste. É claro que os valores não eram mais do que uma piada. O problema é que os barões já não sabem mais identificar uma piada quando estão diante de uma – quanto mais seriam capazes de rir, caso vissem uma piada! Capacidades à parte, eis os valores estimados (sem falar de especulados): oito mil reais o metro², e – paralisem – dois milhões de reais um apartamento. Não é fantasia ou exagero. E isso é só o começo... não há limites para a avidez dos adoradores de Mamom.

Não é fácil sustentar uma charlatanice como essa. Dois milhões por um quadrado para chamar de ‘casa’. Então vêm as tentativas, ‘é a localização’, ‘é o luxo e o conforto’, ‘é a proposta de bairro ecológico’, ‘é o status’. Dentre essas e quaisquer outras justificativas para esse valor astronômico (sem querer ofender aos que gostam de astronomia, que é uma ciência maravilhosa, profunda e instigante... incomparável com a futilidade e a superficialidade do que está em questão aqui), acredito que a única que justifica de fato os valores é a questão do status. E hoje se faz de tudo por status, se vende o corpo por status, se vende a alma por status, se vendem os sonhos por status, e se compra um apartamento por um milhão, por dois milhões, simplesmente e fatalmente por status.

Mas não é de status que quero falar. Eu quero falar é das duas aviltantes justificativas, que são tão cínicas que me provocam raiva, mas elas não me farão sair do sério.
Os arautos do inferno moderno bradam a quatro ventos que esse será um bairro ecológico. E ainda possuem a cara de pau de dizer que esse será “o primeiro bairro ecológico do Brasil”! É preciso ser muito trouxa pra acreditar nessa piada de mau gosto. Vamos lá: por que será considerado um bairro ecológico? Porque vai ter coleta seletiva, uma tentativa de aproveitamento da água da chuva, e algo de energia solar. Faça-me rir! Coleta seletiva? Mas como coletar o seleto lixo da burguesia de Brasília, avaliado como um dos lixos mais ricos do país? Vale dizer que a comida, largamente desperdiçada em casa de barão, estraga rápido e não vai satisfazer as barrigas dos espoliados catadores do lixão. É importante lembrar que comida estragada na farta geladeira do rico e na sua transbordante dispensa não é imprópria só pra você, mas para o pobre também, apesar da insistência que rico tem em doar (desovar) coisa estragada para pessoas pobres.

Bairro sustentável? Ecológico? Por que não mencionar as garagens enormes para satisfazer os fetiches de uma população que tem mais de 1,5 carro por pessoa? Não vão mencionar o impacto disso? Pior do que a política de destinar terrenos para pessoas pobres sem dar nenhuma estrutura para esse aumento populacional (um mote no governo Roriz) é destinar terreno pra barão, justamente porque produzem muito lixo e entopem as vias com seus carros, cada um no seu, ainda que fosse fácil um dar carona pro outro. Além disso, os ricos são espaçosos, cheios de exigência, e coisas que fazem com que um espaço onde cabem 100 ricos caiba, por baixo, 500 pobres.

Ecológico nada! Esse “bairro” (porque de bairro mesmo não tem nada, não tem alma) será erigido na base da devastação de uma reserva ecológica secular! Só se for bairro antiecológico. Ou então, se no livro de biologia do rico a floresta de concreto e aço e as nuvens de fumaça sufocante forem consideradas ecologia.

Além do mais, o mais importante e assombroso ainda está por vir à tona. Muitos dos que habitam aquele lugar já me alertaram sobre um vulto, ora negro, ora branco, ora cinza, enorme ou pulverizado em multifocos, que traz consigo atmosfera de inferno e lembrança de morte, vagando a esmo, errante por toda aquela região. Os nativos dali não o temem, e nem teriam porquê, pois esse vulto pestilento alega ser o seu sentinela. Sim, ele jurou amaldiçoar aquela terra e o que quer que esteja ou se erga sobre ela. É o espírito que guarda aquela terra, e os que com ela se relacionam em reverência e em amor. É o espírito ancestral de todos os que habitam o santuário indígena e por ele zelam. A terra responde como seio, de acolhida e de alimento, com canto coral de expressão da Natureza-Mãe, ofertando saúde, alegria e paz para aqueles que a ela pertencem. Aos que não sabem do que estou tratando, é sobre o que mais importa e é, contudo, sobre o que menos tem recebido importância. É que existe nada menos do que uma aldeia, composta por diversas etnias indígenas, de gerações sobre gerações. Em vez de ser tombado como patrimônio cultural do cerrado, o que querem desse micro-universo é que vá para o olho da rua – sim, para depois um bando de boy queimá-los vivos em praça pública.


Ô Maldição...


sexta-feira, 29 de maio de 2009

Final Feliz pra novela do trote da Agronomia na UnB

Fiquei muito feliz com essa história, aliás, com o final que ela teve. Pensei que seria bom compartilhar com todos os que visitam aqui o carta. A ação saiu em dois jornais diferentes - correio e unb. Confiram.


http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_13/2009/05/22/noticia_interna/id_sessao=13&id_noticia=111639/noticia_interna.shtml
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http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=1722

De repente posto umas fotos das porquinhas!

domingo, 3 de maio de 2009

A mágica do ser humano

É de sentir o ego exaltar-se até os céus. Imagina só: ter o poder sobre a criação. Vamos supor que você tem o poder da criação. Que você tem o poder de criar qualquer coisa. Até mesmo o poder de fazer o ser humano voar! Alguém do passado me levou a sério nesse aparente devaneio. Valeu Santão! Dumont brasileirão botando a humanidade pra fazer inveja nos pássaros mais velozes! (nem tanto... mas a idéia é essa)

“E o faremos à nossa imagem e semelhança” é o que diz a narrativa bíblica quando Deus tem a idéia de criar o ser humano. “E Deus criou o ser humano e viu que era muito bom”.

A narrativa segue dizendo que o ser humano estava sendo designado para cuidar do planeta, e de fato o ser humano é o animal dominante na Terra. Mas olha só o que a humanidade faz! Parecemos os mais irracionais de todos os seres! É só parar pra pensar e logo se fica saturado das irresponsabilidades humanas. Acho que isso, por exemplo, não seria a semelhança com Deus. Mas uma característica humana que carrega algo mágico é a seguinte: olho pras sementes de uma fruta na minha mão. Penso em tratá-las com carinho e as coloco numa terra apropriada. Dou alimento, dou água, protejo. Algum tempo depois eu olho a pequena muda e vejo que saiu da forma como imaginei. Assim foi com Santos Dumont e seu pássaro mecânico, quando ele deu certo.

Trabalho. A capacidade de imaginar, fazer o caminho quase todo na mente, prever o resultado, por em prática, e ver acontecer. E dizer, à imagem e semelhança do texto: ver que ficou muito bom.

Tudo isso, na verdade, só pra parabenizar a nós mesmos pelo nosso dia: Trabalhadores! A vida se faz nas vias da força que despendemos todos os dias! Olho pras minhas mãos e vejo concentrada a essência mágica da produção e reprodução da vida humana.

Muito orgulho do grupo a que pertenço.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Agradeço por ser mulher

Agradeço por ser mulher
Agrada-me que digam que sou histérica,
porque então posso jogar os pratos na cabeça de quem me causa sofrimento.
Gosto que me chamem de bruxa,
porque então posso mudar a direção dos ventos a meu favor.
Gosto que me chamem de demônio, porque posso queimar o leito onde me abusam.
Gosto que me chamem de puta, porque então posso fazer amor com quem me dá vontade.
Gosto que digam que sou frágil, porque me lembram que a união faz a força.
Gosto que digam que sou fofoqueira, porque nada do que é humano me será alheio.
Porém, o que mais agradeço, o que mais me agrada, o que eu mais gosto e o que me faz mais feliz
é que me digam que sou louca, porque então nenhuma liberdade me será negada.
Agrada-me saber que meu cérebro é menor que o cérebro do homem,
porque então meu cérebro cabe em todos os lugares.
Agrada-me que me digam que careço de lógica,
porque então posso criar uma lógica menos fria e mais vital.
Agrada-me que digam que sou vaidosa,
porque posso olhar-me no espelho sem me sentir culpada.
Agrada-me que me digam que sou emocional,
porque posso chorar e rir à vontade. Mil e uma vezes a Inquisição me queimou
e aprendi a nascer das cinzas.
Prenderam-me em um harém e, enclausurada, não deixei de rir.
Colocaram um cinturão de castidade e adquiri a arte de um serralheiro.
Carreguei fardos de lenha e me fiz forte.
Cobriram-me o rosto com véus e aprendi a olhar sem ser vista.
Os filhos me acordaram à meia-noite e aprendi a manter-me em vigília.
Não me enviaram à Universidade e aprendi a pensar por minha conta.
Transportei cântaros de água e soube manter o equilíbrio.
Extirparam-me o clitóris e aprendi a gozar com todo o corpo.
Passei dias bordando e tecendo e minhas mãos aprenderam a ser mais exatas que as de um cirurgião.
Ceifei o trigo e colhi o milho, porém me roubaram a comida e com fome aprendi a viver.
Sacrificaram- me aos deuses e aos homens, e voltei a viver.
Espancaram-me e perdi os dentes, e voltei a viver.
Assassinaram- me e me ultrajaram, e voltei a viver.
Arrancaram de mim meus filhos e, no pranto, voltei à vida.
Agradeço por ser um animal, porque os homens colocaram em perigo a sobrevivência do planeta.
Agradeço por ser mulher
porque o homem não é o centro do universo e sim apenas mais um elo perdido na cadeia da vida.
Agradeço que me digam que sou irracional,
porque a razão tem conduzido aos piores atos de barbárie.
Agradeço por não ter inventado a tecnologia,
porque ela tem envenenado a água e o ozônio.
Agradeço que me tenham colocado mais perto da natureza,
porque nunca estarei só.
Agradeço que me tenham confinado ao lar e a família, porque posso fazer de toda a Terra meu lar e minha família.
Estou feliz que me chamem de dona de casa, porque posso apoderar-me da minha.
Estou feliz de não ser competitiva, porque então serei solidária.
Estou feliz de ser o repouso do guerreiro, porque posso cortar-lhe o cabelo enquanto dorme.
Estou feliz de ter sido excluída do campo de batalha, porque a morte não me é indiferente.
Estou feliz de ter sido excluída do poder porque longe do poder me distancio da ambição e da cobiça.
Estou feliz que me tenham excluído da arte e da ciência, porque as posso inventar de novo.
Com tanta fortaleza acumulada, com tantas habilidades e destrezas aprendidas, mulher, se tentar conseguirá o mundo do avesso.
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(Texto de autoria desconhecida. Supõe-se ser de uma sindicalista da Guatemala)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Educação?


Demorou, mas tá aqui. Eu acho que esse texto não poderia deixar de sair. É que foram duas situações que aconteceram na mesma época, então a gente não pode deixar de mexer com elas. O tema é Educação. Aliás, o tema é educação ou a falta dela? O tema é educação ou é mercado? Pensando bem, não se pode simplesmente dizer que se trata de educação.
A Propaganda há bastante tempo é associada e tida como sinônimo de marketing, termo que poderia ser traduzido por ‘mercadorização’ ou ‘mercantilização’, que significa transformar em mercado, inserir uma determinada coisa na lógica do mercado (ou seja, de mercadorias, compra e venda). Eu acho esse termo marketing mais apropriado para o que hoje ainda se chama de propaganda, pois propaganda ainda tem a ver com propagar uma mensagem, com anunciar uma idéia.. Mas a propaganda e marketing que hoje existem não propagam mais mensagens ou idéias. Aliás, acho que hoje propagam sim uma idéia – uma só e mais nenhuma – que se resume na frase “você precisa”. Por trás de todas as propagandas que se vê por aí, a mensagem é essa. Isso aqui é um produto, uma mercadoria, você precisa dela, e por ser mercadoria você pode adquiri-la numa relação de compra e venda.
O caso é que, pra fazer você comprar, vale usar de tudo. E no meio desse ‘tudo’, muitas vezes se usa de recursos que ferem inclusive a natureza da ‘mercadoria’ que está sendo oferecida. “Chegou a hora de usar”, me diz o cartaz. Eu sou um alvo em potencial: um indivíduo que tem o ensino médio completo. O que é que isso significa, então? Tudo o que eu estudei ao longo de todos esses anos não servem pra nada? Significa que eu até hoje não estreei esse órgão do meu corpo? Significa que até hoje eu não penso. Muito bonito, muito pedagógico por parte da faculdade Projeção. Vender educação na base da negação de qualquer processo cognitivo antes da faculdade.
O outro exemplo aconteceu no mesmo tempo em que essa propaganda do projeção se disseminava pela cidade. Essa foi do colégio JK. Pra vender a mercadoria deles – que é a educação – a estratégia foi fazer alusões a uma novela... :( Além de ser uma mediocridade publicitária associar educação com aquilo que é o maior exemplo de deseducação da tv brasileira, a mediocridade foi ainda maior pelo conteúdo dessa associação, que dizia que “estudar no JK é ‘negócio da China!’”. Agora educação é negócio, e não é qualquer tipo de negócio, é negócio da China! E o pior é que essa é a mais fiel expressão das relações que giram em torno da educação hoje: paga-se para se receber diplomas como se paga para comprar uma mercadoria qualquer numa loja. E onde fica a educação nisso tudo!? A educação é o diploma... são sinônimos...
Os donos de escolas particulares do Valparaíso fizeram uma contra-propaganda num outdoor na frente do JK de lá, desmascarando, criticando e denunciando essa noção perversa de educação como uma questão de negócio$ ou de mercadoria. Tá certo que eles também estavam de olho na perda que iriam sofrer por causa dessa liquidação da educação (literalmente falando), e aí a denúncia serviu como uma reserva de mercado. O fato é que dinheiro de fato não compra tudo, e educação de verdade é muito mais que um diploma. Quem lembra daquela propaganda da Católica que tinha uma mina branquinha que fazia pouco caso das faculdades particulares que cobravam mais barato por um diploma, tudo pra justificar a fama da Católica de ser a mais cara de Brasília, pra dizer que ela cobra mais caro porque a educação dela é ‘de marca’, sossegar o ânimo da elite que lá estuda, diferenciando a educação deles das outras. E por aí vai a corrida dos empresários do diploma na busca de mais clientes para comprar seu produto.
 
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