quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Educação?


Demorou, mas tá aqui. Eu acho que esse texto não poderia deixar de sair. É que foram duas situações que aconteceram na mesma época, então a gente não pode deixar de mexer com elas. O tema é Educação. Aliás, o tema é educação ou a falta dela? O tema é educação ou é mercado? Pensando bem, não se pode simplesmente dizer que se trata de educação.
A Propaganda há bastante tempo é associada e tida como sinônimo de marketing, termo que poderia ser traduzido por ‘mercadorização’ ou ‘mercantilização’, que significa transformar em mercado, inserir uma determinada coisa na lógica do mercado (ou seja, de mercadorias, compra e venda). Eu acho esse termo marketing mais apropriado para o que hoje ainda se chama de propaganda, pois propaganda ainda tem a ver com propagar uma mensagem, com anunciar uma idéia.. Mas a propaganda e marketing que hoje existem não propagam mais mensagens ou idéias. Aliás, acho que hoje propagam sim uma idéia – uma só e mais nenhuma – que se resume na frase “você precisa”. Por trás de todas as propagandas que se vê por aí, a mensagem é essa. Isso aqui é um produto, uma mercadoria, você precisa dela, e por ser mercadoria você pode adquiri-la numa relação de compra e venda.
O caso é que, pra fazer você comprar, vale usar de tudo. E no meio desse ‘tudo’, muitas vezes se usa de recursos que ferem inclusive a natureza da ‘mercadoria’ que está sendo oferecida. “Chegou a hora de usar”, me diz o cartaz. Eu sou um alvo em potencial: um indivíduo que tem o ensino médio completo. O que é que isso significa, então? Tudo o que eu estudei ao longo de todos esses anos não servem pra nada? Significa que eu até hoje não estreei esse órgão do meu corpo? Significa que até hoje eu não penso. Muito bonito, muito pedagógico por parte da faculdade Projeção. Vender educação na base da negação de qualquer processo cognitivo antes da faculdade.
O outro exemplo aconteceu no mesmo tempo em que essa propaganda do projeção se disseminava pela cidade. Essa foi do colégio JK. Pra vender a mercadoria deles – que é a educação – a estratégia foi fazer alusões a uma novela... :( Além de ser uma mediocridade publicitária associar educação com aquilo que é o maior exemplo de deseducação da tv brasileira, a mediocridade foi ainda maior pelo conteúdo dessa associação, que dizia que “estudar no JK é ‘negócio da China!’”. Agora educação é negócio, e não é qualquer tipo de negócio, é negócio da China! E o pior é que essa é a mais fiel expressão das relações que giram em torno da educação hoje: paga-se para se receber diplomas como se paga para comprar uma mercadoria qualquer numa loja. E onde fica a educação nisso tudo!? A educação é o diploma... são sinônimos...
Os donos de escolas particulares do Valparaíso fizeram uma contra-propaganda num outdoor na frente do JK de lá, desmascarando, criticando e denunciando essa noção perversa de educação como uma questão de negócio$ ou de mercadoria. Tá certo que eles também estavam de olho na perda que iriam sofrer por causa dessa liquidação da educação (literalmente falando), e aí a denúncia serviu como uma reserva de mercado. O fato é que dinheiro de fato não compra tudo, e educação de verdade é muito mais que um diploma. Quem lembra daquela propaganda da Católica que tinha uma mina branquinha que fazia pouco caso das faculdades particulares que cobravam mais barato por um diploma, tudo pra justificar a fama da Católica de ser a mais cara de Brasília, pra dizer que ela cobra mais caro porque a educação dela é ‘de marca’, sossegar o ânimo da elite que lá estuda, diferenciando a educação deles das outras. E por aí vai a corrida dos empresários do diploma na busca de mais clientes para comprar seu produto.

10 comentários:

MAZTAH disse...

Mabháh,

Engraçado, peguei um baú um dia desses e uns "boy" do dirito lá da particular estavam conversando... heheheh
Tive a impressão que pra eles a propaganda fazia muito sentido! Fei demais os assuntos... pagando pau pra bandido, pra advogado picareta...

Com relação à mercantilização da parada, eu concordo contigo, acho que virou farofa. É só ver o grupo positivo lá padronizando tudo, COC etc... Uma coisa nessa lógica eu acho proveitoso, a relação cliente-fornecedor. Acredito que quando essa relação respeita a educação como educação a coisa funciona. Afinal de contas, pelo menos eu, quando pago imposto eu quero algo em troca. Paço taxa de luz em troca da iluminação pública lá na minha rua. Eu acredito que tem como fazer um lance bem feito dentro dessa relação.

Késsia foi lá no Sesi tomar posse da vaga de professora e lá no discurso da galera, essa lógica de fornecer um serviço para um cliente não anulava a idéia da educação pra vida, preucupada com valores, com o indivíduo e sua individualidade e etc. Muito loko o esquema lá! Caso um dos mlqs faça algo reprovável, rola uma tal de educação por valores, uma conversa longa, madura e bem fundamentada. Nego lá trabalha com um conceito de competência (conheciemnto, habilidade, atitude) educacional... coisa fina... lá eles tão pouco se lascando pro vestibular, falam que educam pra vida e que vestibular vai no pacote, nada de ALUB-ensino médio, ou TCO-Kids... Fiquei surpreso com a coisa lá... Tudo nessa visão de cliente-fornecedor e bem diferente, pelo menos pelo que ouvi dela, do pacotão particular.

Transformar o bagulho em pacote e ir vendendo por aí é embaçado... O lance virou franquia! Todo mundo pensando igual, estudando igual, saindo igual... Sem falar que tem muita vaga sobrando, em 2007 foi só 1,3 milhões de cadeiras vazias!

Aê, saiu umas matérias no site da unb, acho que vc deve ter lido, senão, toma aê:
http://www.secom.unb.br/unbagencia/unbagencia.php?id=1185
http://www.secom.unb.br/unbagencia/unbagencia.php?id=1172

Flw, Mabá!

cuca disse...

É fogo.
Essa parada de usar a cabeça é a maior subestimação que rola. Não é nem o fato de que o conteúdo aprendido no ensino médio não serviu pra nada, mas é uma afirmação de que esses futuros alunos da faculdade não conseguiam, ou não sabiam usar o cérebro, como idiotas, burros ou qualquer outro ser desse tipo. Então como é? A Projeção virou um depósito de pessoas incapazes de pensar? E agora elas serão ensinadas a isso? Acho que não. Afinal, o interesse desse tipo de serviço, assim como outros que envolve grana, é o retorno financeiro que o aluno - aqui no sentido literal da palavra 'sem luz' - vai garantir para a faculdade.
E aqui no Val, acho que a crítica das escolas foi por puro protecionismo mesmo. Querendo ou não, a escola de melhor nome na cidade é a JK e oferecendo uma promoção como esta, de descontos até o final do ensino médio, iria atrair muito alunos das outras escolas particulares "meia-boca" e levando esses colégios à falência! E quem quer ver seu negócio falindo, não é mesmo?


beijo, meu bem :*
(hehehe pago pau mesmo)

Eduardo Chaves disse...

É verdade...mas eu fico pensando, a escola, até o segundo grau e até mesmo depois disso, salvo poucas exceções, é extremamente chata. Professores desmotivados, sucateamento de tudo na escola: esporte, cultura e ensino. Hoje fui visitar uma escola no Paranoá para tentar uma matrícula. Fiquei olhando a dinâmica e tudo era muito alienante, dificilmente aquele lugar instiga "o cérebro a funcionar".

Acho que esse anúncio é só uma manifestação do não encadeamento (hehehe) da Educação como processo contínuo e integrado, aí dá nisso - as séries escolares, ou níveis de ensino, nada mais são que vários mercados renovados a cada ano-.

Eduardo Chaves disse...

Ps.: Ó o Báia, Maztah's'tealer!

ortegal disse...

Po, Paulo! No caso desses mlqs do baú nem a propaganda faz sentido! hahah não 'começaram a usar' nem no vestibular e nem depois dele! heheh
O problema é que a educação não era pra ser mercadoria, era pra ser direito. Era pra ser sempre concebida como um direito de todo ser humano a acessar o que quiser daquilo que foi historicamente construído pela humanidade da qual ele é herdeiro. É a partir disso que se educa uma criança pra que ela fale, pra ela leia, e escreva - e esse processo é impositivo, pois as crianças não têm escolha - mas é necessário que ensine pra que as pessoas adquiram liberdade saiba desfrutar de tudo aquilo que está a disposição. Quando a coisa debanda pro lado da relação cliente-fornecedor, começa-se a pôr em xeque a essência da educação. Quando o cliente quer a educação que o liberta, que o faz compreender o mundo ao seu redor e a si mesmo, o fornecedor oferece isso. Mas... quando o cliente quer uma falsa educação que se traduz em diploma, reconhecimento ou status social, aí é que começa a desandar. Imagina só se uma determinada faculdade privada começa a ir por essa lógica? A cobrar mais filosofia do que física, mais sociologia do que matemática? Ou pra não ir tão longe: imagina uma escola particular tipo o Galois que não faça prova V ou F e só subjetiva? Todos os que entendem que educação média é só um treino pra unb vão esvaziar a escola - e são só uns 90% dos alunos.

Fico imaginando o caso do SESI. Ouvi dizer que lá o ensino é integral e envolve várias coisas como reforço escolar, esportes, artes, etc. Mas é aquilo que o próprio nome já explica: Serviço Social da Indústria. é o braço 'social' do setor industrial. Nesse caso a mensalidade não pode ser muito alta e se fosse um empresário por trás da escola, ele com certeza não seria rico como dono do Galois, por exemplo. O Sesi, o Sesc, etc. estão preocupados não com a social deles mesmo, mas do setor que eles representam.

O imposto também é um pouco complicado. Ele parece uma relação cliente-fornecedor, mas na verdade não é (ou não era pra ser). Ainda que seja uma tendência moderna os Estados perseguirem o modelo empresarial, a relação continua sendo a seguinte: existe um ente responsável por assegurar direitos a todos os cidadãos, e cada um desses contribui com uma parcela para o serviço (e o direito) exista e possa ser usufruído por todos. Se virasse uma relação fundamentada em cliente-fornecedor, aqueles que não tem condições de pagar não receberiam, e os que pagam mais caro (era pra serem os mais ricos, mas não são eles) deveriam usufruir de um serviço melhor e ninguém poderia reclamar.

E o mercado de faculdades privadas não anda muito bem das pernas, mesmo. Eu vi essas reportagens e ele tá realmente desaquecido. Os empresários foram com muita sede, mas esqueceram que a maioria dos brasileiros é pobre e boa parte não tem o pré-requisito que é o ensino médio.. O pessoal tá comprando outros produtos...

Fuckin'Jay disse...

Vcs são muito é cri-cri...eu me amarrei nas propagandas, negócio da china esse blog aqui viu!
huahauahuah

ortegal disse...

"Chegou a hora de usar."
hahahahahaha ficou muito exagerada essa frase! hahaha! Com certeza isso passou desapercebido pelo pessoal do marketing. Mas eu concordo com vc, Kamilla, que ficou subentendido,pressuposto um recado como esse aí. Foi um ato falho que acabou denunciando esse modo de enxergar a educação. E se conhecimento é poder, vender conhecimento é bom negócio num mundo de gananciosos.

ortegal disse...

Acho que a maior prova de que o processo se dá sem relação nenhuma entre as etapas é a velha frase: "sabe aquilo que vc aprendeu no segundo grau sobre isso? Pois é, esquece."
Olhando pra trás há algum tempo, eu me dei conta de que vi e revi certos conteúdos da gramática em várias séries diferentes, mas era como se fosse tudo novo de novo... E pensando bem, faz sentido mesmo que a estrutura seja a do não pensar, pois eu me lembro muito bem de quanto tempo eu passava pensando sobre o fato de que eu não pensava naquelas aulas.

ortegal disse...

Po Jonas! Então aprenda com a propaganda! "Chegou a hora de usar"! uhahuahuahuahu abraço mlq!

Ryone Valeriano Novais de Oliveira disse...

Isso que eu chamo de mercantilismo, ou melhor, imperativo categórico de consumo!
Eu também penso que a hora de usar o cérebro para um determinado fim significa rotular o conhecimento.
"Usar o cérebro"? Que seja... o que acontece é que ele funciona como uma válvula redutora em que nos permite uma vida mais "suportável" e "adequada" em seus aspectos sociais... pois nem sabemos como é que ele funciona e a quê está condicionado.

 
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