domingo, 17 de fevereiro de 2008

Isto é o quê!?

Quem vai pelas ruas do Distrito Federal onde as paradas de ônibus são de vidro já aprendeu. “Isto é comida” “Isto é entrenimento” “Isto sim, é moda”. São esses os dizeres de uma propraganda espalhada por todos os lados. Tá certo, é uma arte bem bonita, colorida, curiosa – e leve: Só a arte, o slogan, e no pé do cartaz diz “Isto é nova york” e o endereço de um site. Então o problema não é a arte, nem o conteúdo do cartaz. A questão aqui e que passa desapercebida, mas não deixa de causar o seu efeito é a mensagem quem vem neles.
Para apresentar uma mensagem simplificada, direta, de rápida assimilação do público-alvo (alvo mesmo nesse caso), apela-se pra tudo. No caso dessas propagandas aí, apelou-se para definições. O problema de definir o que é comida, o que é entretenimento e moda é justamente de por em questão o que não é. Trocando em miúdos, o que vai pensar o camarada trabalhador, que pega seu ônibus seis da manhã, que comeu cuscuz de manhã e ajeitou sua marmita de arroz com feijão pra logo mais, e se depara com desenhos de t-bone, hamburger, e roast beef? “Isto é comida. Visite NYC e conheça comida finalmente, seu analfabeto gastronômico.”
Pior do que o da alimentação é o que fala de moda. “Isto sim, é moda” Isto sim!? Pra mim, é como se o cartaz olhasse pra cada um dos cidadãos que utilizam o transporte coletivo (os baús) e estão ali na parada de ônibus e fizesse uma cara de nojo, como de quem diz “que merda de vestimenta é essa de vocês? Vocês acham que estão bonitos? Isto aqui, sim, ó, é moda de verdade.” Isto sendo que a arte é tipo uma planta que tem como flores e frutos sapatos de salto alto, bolsas, óculos, chapéus...
Pra mim, são muito mais do que cartazes que propagam as virtudes de Nova Iorque. São mais uma invasão sutil, porém aguda, do padrão norte-americano na cultura brasileira. Aqui nós temos uma culinária histórica, deliciosa, e na maioria das vezes muito mais nutritiva; formas de entretenimento mais saudáveis, mais alegres, mais humanas e mais acessíveis do que aquele show de luzes e tecnologias frias e de pouca interação; e a nossa moda é muito mais.. é muito... é, se bem que a moda... hehehe brincadeira.


Brasil e América Latina como um todo são riqueza pura nesses aspectos e todos os outros. Quem sabe abrir os olhos pra isso pode confirmar. Mas muita gente já aprendeu com o cartaz muito antes dele existir e vive aqui como se estivesse numa bolha nova-iorquina.

8 comentários:

cuca disse...

Uma coisa que me deixou pensativa foi "pq escolher paradas de ônibus???". Tá certo que muita gente passa de carro por ali, mas quem fica muito mais tempo em pé ao lado desse cartaz é o cara que depende de ônibus, logo dificilmente ele tem grana pra ficar voando para NY. Não sei o que passa na cabeça dos publicitários, mas que eles conseguem gerar um sentimento de frustração generalizada e uma sociedade doente pelo consumo... ah, disso eu tenho certeza!

Grodash disse...

Concordo com a Cuca. Incrível! O Distrito Federal todo tá lotado destes cartazes... O mais legal é ver a cara de "oxênte" ou então a cara de paisagem que o pessoal da Ceilândia faz quando olha. Só rindo pra não chorar... Espalhar propaganda de NY nas paradas de ônibus de Brasilia(asa sul, norte, lagos, etc) até que vai, é menos mal porque tem quem consiga ir... Mas Ceilândia?! Setor O?! Guariroba?! há!

Tava conversando com a Késsia um dia desses sobre isso. O lance é que falta pro povão, assumir o Brasil. Os caras vem pra cá, jogam essas propagandas de merda fica por isso mesmo... Frustação pros que não conseguem ter as coisas que eles promovem (85% do povão ou mais?).

O Nordeste e o Norte estão LOTADOs de gringos montando hotel pra gringos e contratando "nativo" a preço de banana. NÊgo acha lindo, ou então não ta nem aí... O povo não tem ambição... Ta bom assim... AH! Mermão, nasci aqui nesse lugar e vivo vendo estrangeiro tratando brasileiro mal, aqui! Todos os garotinhos e garotinhas riquinhas saem do Brasil pra ir trabalhar nos sub-empregos de lá. Será que as oportunidades são as mesmas? Será? Enfim...

Muitos vem aki, fazem o que quer, nem siquer aprendem o nosso idioma... Olha aí os China da feira do paraguai? Vai perguntar as horas pra eles?! Escuta só a resposta... Os caras moram há 10 anos e não se dão ao trabalho de aprender nossa lingua... "pra quê"?

Ê desabafo! hahahahaha

ortegal disse...

não sei, cuca.. mas essas novas paradas serviram realmente como um aparato de proganda em massa como nenhum outro já serviu. Imagina! Em cada parada dessa cidade isso está espalhado! Panfleto, outdoor, etc não consegue isso! Na rua, pelo menos, não. Impressionante essa sacada da sociedade das mercadorias, de transformar as paradas de ônibus em veículos de publicidade (trocadilho de bônus aí).
E a frustração é mil vezes, 24h por dia, principalmente em sonho..
"Eu sou cobrado, abusado, estimulado a ter tudo, e confinado a viver num verdadeiro submundo"
(prof. Pablo)

Marcelo disse...

Eu ainda não tive o desprazer de ver essa propaganda, mas eu posso dizer que o que a massa deseja e não pode alcançar é o que tem maior status, e esse status incentiva o rico a comprar. Veja bem o melhor exemplo é o do nike shoxs, depois que o povão começou a usar perdeu totalmente a credibilidade. Mas as propagandas em compensação eram feitas para eles (e para os outros também, para todos). Uma pergunta qual é o público alvo da malhação por exemplo? São as empregadas e as menininhas de colégio, não é o milionário super poderoso, aliás nenhuma novela. Em compensação, a maioria delas firmam as tendências de forma absurdamente forte.
Não podemos nos esquecer também que essas paradas podem ser vistas pelos que andam a carro também.
Quanto ao fato de ser "NYC" (que merda) acredito que isso seja se aproveitar da enorme quantidades de filmes e outras propagandas predecessoras que já fizeram a cara de Nova york para poder copiar alguma coisa que eles já vendem lá a muito tempo e lucar em cima.

Sobre o que era a propaganda? Agência de viagem? Ou era alguma coisa de shopping sei lá o que?

Marcelo disse...

Eu lembrei de uma coisa agora: Brasileiro num tem direito nem a ter um natal próprio! Aliás nós preferimos o natal (estrangeiro) com seus presentinhos, papai noel da coca cola, e nevezinha em cima do pinheiro pra por na sala, do que alguma comemoração regional. E as pessoas ainda acham que o clima de natal é tão agradável e lembra àquelas cenas de filmes.

ortegal disse...

Grodash, eu sou dos que acreditam que o pessoal da parada que vê as propagandas e nem reflete nada. Em alguns casos, nem o inconsciente consegue captar, de tão distante que a propaganda está daqueles a quem ela afeta.

Sobre isso no Nordeste, nem me fale. O nordeste como um todo é, na verdade um engenho moderno. Muita gente não sabe, mas lá tem alguns dos hotéis mais luxuosos do país. Hotéis horizontais, com campos de golf e etc. Em Salvador, condomínios fechados, praias particulares (o que era pra ser um crime, mas..), etc. E o Pelô trabalhando até no sol de 12h pra erguer as estruturas do dia de sua exclusão universal em sua própria terra.
E sobre os China da feira do paragua, e os árabes, e os coreanos, e os japoneses, e os turcos, entre alguns outros que vêm pra cá montar negócio, nem me fale. Só aqui mesmo pra um estranho (estran geiro) ser tratado melhor que a própria mãe dele o trata no seu próprio país.

Pedro Rezende disse...

Aqui em Belo Horizonte também existem essas propagandas... só tem um porém. NUNCA consegui ler do que se trata, muito menos o endereço do site. Alguem sabe me informar?

cuca disse...

eu boto fé que esses dias teve uma cena da novela das oito da TV Globo em que essa propaganda aparecia... Foi uma cena de uma mulher bem coadjuvante andando no calçadão da praia (novela das 8, leblon, rio de janeiro charmoso... a cena do calçadão é fundamental). Daí rolava uma parada de ônibus na cena e tal, igual rola aqui!!! tenho quase certeza que apareceu! :O

 
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